O lugar teatral e a cidade:
A
poética da ocupação
José Simões de
Almeida Junior
Universidade de Sorocaba
O lugar teatral dialoga com o processo criativo dos dramaturgos, e vice-versa,
de tal modo que o texto é resultado de uma sua relação com um lugar real, antes mesmo da encenação.
Muitos grupos deixam à mostra essa relação entre espaço e dramaturgia, como se
pode observar nos espetáculos do Teatro
da Vertigem (www.teatrodavertigem.com.br) e em sua ocupação dos espaços públicos
da cidade, especialmente no BR3,
realizado no rio Tiête; nos trabalhos desenvolvidos por Rodolfo Vasques e Ivan
Cabral à frente do grupo dos Satyros (www.satyros.com.br), na praça Roosevelt, ou nos
de Zé Celso Martinez Corrêa, do Teatro
Oficina (teatroficina@uol.com.br), no bairro do Bexiga, ou nos do
dramaturgo Newton Moreno e a sua encenação de Assombrações do Recife Velho,
entre outros. Esses artistas e suas obras, de encenação e escrita, estão
vinculados a um lugar e à cidade de
São Paulo.
E não poderia ser diferente
para um teatro que deseja pertencer à cidade, que deseja referendar uma
dialética entre cultura e sociedade. Um teatro que não pretende ser
identificado apenas como um edifício, monumento histórico ou referência
turística para a cidade e seus cidadãos, como é o caso dos teatros
municipais/monumentos das grandes cidades.
Um teatro que se propõe
fazer parte de uma outra espacialidade, com o objetivo de que toda a cidade
possa ser teatralizável. Espera-se, portanto, que o espaço teatral possa ser
compreendido como um fato social que interfere e articula nos processos
socioculturais da cidade, e não como um reflexo da cidade ou mesmo da
dramaturgia, ou como um depósito para a cena.
Um dos caminhos expressivos
da dramaturgia contemporânea paulista, nesse período (2000-2006), foi
incorporar a própria teatralidade ao texto, naquilo que Silvia Fernandes
considera “uma tentativa de apropriar-se de tudo aquilo que na representação é
especificamente cênico” (2001: 74), como podemos observar nas dramaturgias de
Newton Moreno (Assombrações do Recife
Velho), Grupo da Vertigem (Livro de
Jô e BR3), Fernando Bonassi (Entre Ferragens), Zé Celso Martinês
Corrêa (Cacilda, Os Sertões), entre outros. Do mesmo modo, o lugar teatral e o seu respectivo espaço cênico “apropriou–se”
também dessa teatralidade, o que
resultou na produção de uma multiplicidade de lugares plenos de significação.
Tal apropriação da
teatralidade pelos lugares teatrais
da cidade deu-se pela incorporação de estruturas arquitetônicas distintas, seja
pela ocupação simbólica da cidade -onde pequenos teatros passaram a ocupar ruas
de prostituição, sobrelojas, garagens, fábricas abandonadas, casarões,
indistintamente, etc.- seja pela ocupação transitória de determinados espaços
teatrais.
É importante afirmar que o
surgimento desses novos lugares
(edifícios ou salas de teatro) não consistiram num processo de substituição dos
espaços existentes, e sim num processo de acumulação que, aliado ao conceito de
rugosidade (1), fundamenta a importância das estruturas espaciais
deixadas pelo passado e sua existência/articulação com a atualidade, como
afirma Santos (2004: 252): “tudo o que existe articula o presente e o passado,
pelo fato de sua própria existência. Por essa mesma razão, articula igualmente
o presente e o futuro”.
O tempo histórico é
fundamental para a compreensão da relação do Teatro com a Sociedade. Desde que,
seja observado atuando no espaço e não dissociado, como um vetor absoluto.
A propósito foram inúmeras as
transformações ocorridas na paisagem teatral da cidade de São Paulo nos últimos
vinte anos, principalmente aquelas relativas às mudanças que envolvem questões de “visibilidade” dos
edifícios teatrais e “apropriação” do espaço. Isso se justifica porque a
natureza transformada pela ação humana, ao longo de uma série de gerações,
dá-se enquanto modos de apropriação visíveis na paisagem, reproduzindo história
e concepções do homem sobre o morar, trabalhar, viver (Carlos, 2004: 35).
Notou-se, durante o período,
que as salas de espetáculos construídas na cidade de São Paulo, em sua maioria,
entre 2000 a 2004, foram “engolidas” pela verticalização crescente da
metrópole, o que resultou, de certo modo, em uma aparente “invisibilidade” dos
edifícios teatrais (em oposição à necessidade de “visibilidade” de que o Teatro
tanto necessita), já que estes se encontram interiorizados em outros edifícios.
Podemos considerar tal
“invisibilidade” como um modo de apropriação da teatralidade pelo espaço do
teatro na sua relação com a cidade. O lugar
teatral, ao se incorporar, ou mesmo se camuflar e desaparecer na paisagem
da cidade, pode, por um lado, demonstrar claramente a efetiva alteração de sua
função social e sua mudança na hierarquia como atividade cultural para a sociedade,
resultado da ação do tempo e da sua história.
Por outro lado, tal
processo poderia ser uma manifestação daquilo que Artaud já preconizava, a
saber, um teatro adiante e com a percepção do seu tempo: “Não sou dos que
acreditam que a civilização deva mudar para que o teatro mude; e acredito que o
teatro, utilizado no seu sentido superior, é o mais difícil possível, tem força
para influir sobre o aspecto e sobre a formação das coisas” (Artaud, 1984:
103).
Desse modo, os lugares teatrais “mergulhados” na
paisagem da cidade (locais múltiplos, distintos e provocadores) buscam
pertencer a ela, como também buscam pertencer a uma nova estrutura de Teatro.
Os espaços, assim, foram
revelando dramaturgias compostas por formas híbridas, pois:
o resultado da apropriação da teatralidade pela
dramaturgia mais recente é que o texto literário ganhou novo estatuto. O
dramático ainda se conserva no modo e enunciação, na construção dos diálogos,
monólogos ou narrativas e, algumas vezes, no desdobramento dos personagens. Mas
a qualidade deixa de ser medida pela capacidade de criar ação. Agora o teatral
pode ser apenas espacial, visual, expressivo no sentido da projeção de uma cena
espetacular (2001: 74).
A espacialidade da cidade,
portanto, foi integrada à ação dramática e à encenação e, dessa forma, ao
espaço teatral como um todo. Poder-se-ia considerar, também, que a criação
dessa qualidade da ação está fortemente ligada à tipologia dos novos espaços.
A maioria dos dramaturgos
contemporâneos paulistas, diante dessa percepção, tem discutido nas suas obras
o homem e a cidade por meio de temas como a violência, a solidão, a
não-comunicação, etc., de tal modo que suas relações entre o espaço dramático e
a sociedade não pertencem a um lugar inexistente (não-lugar), mas sempre
perpassam a cidade naquilo que podemos denominar de uma dramaturgia da cidade.
Esse processo pode ser
observado na proposta de dramaturgia e na encenação do espetáculo Assombrações do Recife Velho, (2) do dramaturgo e diretor Newton Moreno, realizada no
casarão Belvedere (3), na cidade de São
Paulo, em 2005.
São inúmeras as
intersecções existentes entre a linguagem poética utilizada pelo autor,
fundamentada na tradição popular, e nas suas relações com o espaço teatral e
com a cidade.
O texto de Moreno, Assombrações do Recife Velho, baseado na
obra homônima do sociólogo Gilberto Freyre, é um mergulho na alma do homem do
nordeste e, conseqüentemente, na identidade do homem brasileiro. Não é,
entretanto, a identidade de um homem ligado ao campo ou à natureza, mas de um
homem vinculado à cidade. É essa a principal característica da criação de
Newton Moreno, o modo que revela e relaciona a identidade cultural brasileira
com a cidade, tendo como mote a memória cultural.
Sua dramaturgia
não linear é constituída por pequenas histórias fragmentadas, que refletem
simbolicamente as ruas e vielas da cidade do Recife, resultando isso na
utilização dos espaços cênicos divididos em múltiplos espaços dramáticos, e cuja
proposta é uma cartografia poética da cultura popular na cidade.
Moreno (2005), no programa
da peça, já deixa antever sua proposta de “levar uma cidade” para a cena:
a voz primeira, Gilberto Freyre; depois a voz do povo, grande mestre de
cerimônias; e o adaptador harmonizando estas contribuições. Com esta base
textual, o grupo enfrentou a construção em processo do espetáculo. Híbridos em
nosso artesanato – fiéis ao texto de Gilberto, rica cornucópia de Gêneros e
estilos – apresentamos uma estrutura fragmentada. Alguns personagens e suas
estórias nos conduzem com a força de suas imagens. Espetáculo que ocupa velho
casarão de São Paulo, de Recife, da cidade, do lugar que couber em suas
lembranças.
A dramaturgia do autor
revela o afastamento gradual da cultura popular das discussões da sociedade
urbana, e revela também a resistência dessa mesma cultura nas periferias, para
não desaparecer. Nesse processo de sucateamento da cultura popular e da própria
cidade, ocorre a transformação dos hábitos dos artistas-artesãos revelada pelos
desníveis sociais a que são submetidos; pela massificação e transformação do
imaginário popular, via programas de televisão e pelo esquecimento sem
resistência. Por fim, o texto de Moreno faz brotar a necessidade de uma memória
da resistência, memória, enfim, de uma cidade que resista ao tempo.
A multiplicidade de espaços
no texto é materializada pela encenação realizada em um casarão abandonado no
centro da cidade de São Paulo. O fato de o espetáculo teatral não ocorrer em um
edifício teatral propicia ao espectador a sensação do inusitado, da quebra do
convencional.
O espaço diferenciado
estimula os canais sensoriais do público, aumentando a percepção e observação
desse novo território a ser descoberto, pois propõe ao espectador uma série de
vazios e de não-lugares, que a sua imaginação pode conotar.
Tal situação é resultado de
uma série de expectativas e ansiedades que, por meio de agenciamentos
existentes no texto- espaço dramático, das linhas de força produzidas pelo
embate da atuação dos atores e pela atuação do público, também serão
incorporadas à leitura da montagem.
Ao entrar no incrivelmente largo corredor do Casarão Belvedere, o
espectador atento verá uma plaquinha: Rua do Encantamento. Em compridos bancos
laterais, será convidado a se acomodar. Cada porta de quarto passa a ser então
a porta de uma casa. Assim, vai compartilhar como antigamente a convivência de
vizinhos, seus casos, suas histórias no espetáculo Assombrações do Recife
Velho. Aos poucos, percebe-se que cada lobisomem, alma penada, demônio ou
“visage” que por ali circula tem algo a ver diretamente com desejos, sonhos,
recalques bem humanos. Há desde os mais inocentes, passando pelos eróticos, até
os mais repugnantes, como o popular Papa Figo, cujos pilares estão bem
assentados na terrível realidade da desigualdade social brasileira. Assim, o deslocamento no espaço e
no tempo é só o primeiro e mais evidente entre outros propostos por essa
montagem (Nespoli, 2006).
O casarão revela o
imaginário e torna visível a poesia do texto. A dramaturgia deseja o olhar
diferenciado do espectador e da cidade, um local descaracterizado de sua função - usurpado da atividade inicial, mas
“sobrevivente” na forma e preenchido pelas significações da encenação, pois “o
espaço convida à ação, e antes da ação a imaginação trabalha” (Bachelard, 1998:
31).
Quase todo o espetáculo se beneficia do lugar de exibição, uma antiga
moradia restaurada no ponto certo, ou seja, sem que a intervenção apague
inteiramente as marcas do tempo sobre o prédio. Desse modo, as assombrações se
deslocam por um edifício vagamente antigo, com sinais de desgaste, mas
encravado entre arranha-céus e viadutos. É um espaço que conjuga duas
fronteiras temporais e o sentido dessa justaposição é também o alvo do trabalho
cênico Lima, 2005).
O espaço teatral e a sua
respectiva dramaturgia são marcados pela tendência à multiplicidade e pela
ausência de fronteiras definidas, um espaço vivo composto por espaços cênicos
não decorativos, para que se crie um mundo autônomo (4).
Trata-se de uma
representação espacialmente descentralizada, determinada pela fragmentação do
espaço e multiplicidade de pequenas zonas que integram fisicamente o espectador
no espaço. E que tenta dissuadi-lo de continuar a olhar o mundo com a ajuda de códigos habituais; ao contrário, o
estimula a uma nova percepção autônoma do mundo.
Newton Moreno coloca em
cena muitas vozes, fragmentos
intertextuais, em que a ação não subjaz à pausa, mas se revela na relação
da palavra narrada com o espaço, seja essa relação entre a palavra e o espaço cênico do velho casarão, seja entre
a palavra e o espaço da memória,
metáfora do casarão abandonado que existe em cada um de nós.
Existe somente uma
dialética possível entre o espaço teatral e a dramaturgia, o que se dará se ela
ocorrer via sociedade e, consequentemente, pela cultura, uma vez que a
sociedade é mediatizada no espaço teatral que, segundo Ubersfeld (1996), não é
uma cópia do mundo, mas o próprio mundo.
O espaço teatral pode ser compreendido como uma síntese provisória entre o
conteúdo social e os objetos que constituem a cena.
Sob as histórias de fantasmas há um fundo histórico que a imaginação
coletiva enfeita e deforma e, por essa razão, os narradores populares são os
verdadeiros heróis do espetáculo. São os homens pobres da cidade recebendo os
espectadores, envolvendo-os fisicamente e seduzindo para que se tornem
permeáveis aos encantos de uma narrativa supra-histórica . O desenho do
espetáculo repousa sobre a capacidade de sedução das personagens e, em seguida,
sobre o poder de transformar o ambiente em espaço dotado de atmosfera dramática
(Lima, 2005).
No caso de Assombrações do
Recife Velho, em um local como um casarão “invisível”, a paisagem da cidade (no
sentido de que ele não é um edifício teatral) traz consigo uma noção de
provisório – aberto, sem síntese, representação de um mundo em constante
evolução – que rompe uma paisagem da cidade – com seus fixos e fluxos -,
atuando vivamente na produção de um lugar teatral.
Os edifícios teatrais e a
sociedade são componentes complementares de uma paisagem cuja síntese é dada
pelo espaço compreendido como
um conjunto de fixos e fluxos. Os elementos fixados em cada lugar
permitem ações que modificam o próprio lugar, fluxos novos ou renovados que
recriam as condições ambientais e as condições sociais, e redefinem cada lugar.
Os fluxos são um resultado direto ou indireto das ações e atravessam ou se
instalam nos fixos, modificando a sua significação e o seu valor, ao mesmo
tempo em que, também, se modificam (Santos,
2004: 61-61).

Em suma, a encenação do
texto de Newton Moreno (Assombrações do Recife Velho, no Casarão
Belvedere, em São Paulo) é um exemplo no qual se discute o espaço teatral como
agente da comunicação. Isto é, faz refletir sobre as significações dos lugares teatrais em suas relações com a
sociedade e o próprio fazer teatral. Reconhece-se, assim, que o espaço não se
constitui em depósito da cena mas, ao contrário, em um vetor que obriga o espectador,
como que diante de um espelho, a refletir sobre sua própria imagem sobre a
cidade.
Notas:
1. Segundo Godoy (2004: 34) “A noção de
‘rugosidades’ complementa a concepção de que a produção do espaço é, ao mesmo
tempo, construção e destruição de formas e funções sociais dos lugares. Ou
seja, a (des)construção do espaço não se refere apenas à destruição e à
construção de objetos fixos, mas também às relações que os unem em combinações
distintas ao longo do tempo”. Volver
2.
Assombrações do Recife Velho é o quarto texto encenado de
Newton Moreno na cidade de São Paulo. Os anteriores foram Deus sabia de tudo e não fez nad”, A mulher do trem e Agreste.
O autor foi considerado pela critica especializada um dos mais promissores dramaturgos
de sua geração. Volver
3.
O Casarão
Belvedere antes da encenação estava abandonado, e atualmente (em 2006) se
propõe a ser um centro cultural. Volver
4.
O espaço cênico não é mais feito através da
mimesis, mas pelo artefato
(Ubersfeld, 1996: 100). Volver
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